"Vamos dar uma voltinha, ali..."

Engraçado como muita gente tenta agir de má fé, seja a primeira vez ou não usando Uber ou qualquer outro serviço.


Numa das noites de trabalho, até então, tudo normal, eu me encontrava no Setor Sudoeste, aqui em Goiânia, quando recebi uma chamada vinda de uma praça na av. C-12. Ok, dirigi-me pra lá, e o app
identificou uma mulher. Ao chegar, uma garota aproximou-se e disse que a viagem seria para dois amigos dela. Detalhe: eles estavam na porta de um "clube", onde rolava uma festa funk! Os dois marmanjos vestiam roupas típicas, com seus tradicionais bonés de aba reta, além das já convencionadas camisas de time de futebol, largonas, e calças de nylon ainda mais largas. Até aí, não vejo nenhum problema, também.
Assim que dei início à viagem, não foi identificada a rua, mas apontava para o Jardim Guanabara, por volta de uns 18, 19 km. Perguntei o nome da rua e um dos garotos - "garoto de 19 anos" - me disse que, chegando próximo, ele falaria. Ok, isso acontece.
Durante a viagem, procurei, como sempre faço, conversar. Evidentemente, não havia muito o que tirar daquelas cabeças, mas, pra quebrar o clima de cemitério dentro do carro, vale tudo, até falar merda. Os moleques, por ora, até pareciam gente boa.
Chegando próximo à residência de um deles, até na mesma rua, pediram-me para "parar aqui, mesmo". Assim o fiz.
- Deu trinta e seis e noventa. - eu disse, encerrando a viagem.
Um deles pediu o dinheiro para o outro, que disse:
- Uai, cê num tem, não?
- Eu? Não, tenho não. - dizia um deles, enquanto ou olhava pra trás e via que o moleque abria uma carteira mais vazia do que a cabeça dele.
Na hora, eu disse:
- Não acredito que você chamaram Uber sem dinheiro...
Carro parado no meio de uma rua deserta, molecada sem dinheiro, e até então não tinham nem dito onde realmente moravam.
- Moçada - tentei novamente - vocês estão brincando, né?
- Uai, moço, não. Eu achei que tinha dinheiro...
- Eu não tinha. - disse o outro.
Virei-me, acelerei e saí com o carro, fazendo o retorno na mesma rua.
- Ei, onde cê vai, moço? - perguntou um deles.
- Nós vamos ali, dar uma voltinha...
- O quê??
- Vocês não vão sair desse carro sem pagar. Vamos dar uma voltinha, ali. - disse eu, já um pouco sem paciência.
- Moço, cê ficou doido?? Eu moro ali. Eu pego o dinheiro!
Parei o carro, olhei pelo retrovisor. Os dois estavam até pálidos.
- Então, por que você não disse logo, rapaz? Tá me tirando? - eu costumo usar um linguajar bem próximo dos meus passageiros, pra entrar numa sintonia melhor.
- Uai, eu ia falar.
- Ia... - pensei.
Dei a volta novamente e parei em frente à casa que ele disse morar.
- Não dá uma de malandro comigo, não, garoto. - eu disse, enquanto ele descia pra ir buscar o dinheiro dentro de casa. O outro permanecia no carro.
Em poucos minutos, lá estava o garoto, todo nervosinho, do lado de fora da minha janela, jogando o dinheiro em meu colo e esbravejando:
- Preciso disso não, cara!
Apenas dei uma olhada pra ele, depois para dinheiro (havia 37 reais), e não disse nada. Conferi a saída do amigo dele e saí de lá.
Depois do ocorrido, pensei o quão arriscado fui. E se, ao invés do dinheiro, o rapaz tivesse voltado com uma .38? hehehehe


Ilustração: Tars


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